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A MULHER NÃO É UMA PERSONA:

O que as marcas perdem quando tratam a experiência feminina como nicho?


As lutas femininas ampliaram radicalmente as possibilidades de existência das mulheres. O problema é que essa ampliação de papéis nem sempre veio acompanhada da redução dos anteriores.

A mulher pode ser profissional, líder, empreendedora, independente – mas continua sendo cobrada pelo cuidado, pela vida afetiva, pela aparência, pela saúde emocional e pela manutenção da casa. No Brasil, as mulheres ainda dedicam, em média, 21h36 por semana ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado, contra 11h48 dos homens.

Em certa medida, o mercado incorporou parte das conquistas femininas sob uma lógica perversa: agora que podemos ser mais coisas, precisamos performar bem em todas elas.

A emancipação ampliou as possibilidades, mas a cultura da performance transformou algumas delas em novas obrigações.

O problema é que o mercado ainda procura “a mulher”

Foto: The Mum Clubs

Enquanto a experiência feminina se torna mais complexa, fragmentada e contraditória, boa parte do mercado continua tentando encontrar uma definição simples para ela. Às vezes é uma mãe amorosa ou atribulada, lidando com os problemas do filho adolescente. Outras, é uma consumidora preocupada com sua autoestima. Algumas vezes ainda, quando a marca está disposta a arriscar um pouco mais, é uma girlboss madura, independente, mas às custas da sua vida pessoal. 

Enquanto estrategistas, criamos personas para organizar o mundo. Mas a vida não cabe nesses padrões. 

Uma mulher pode desejar independência e casamento. Pode ter ambição profissional e querer menos trabalho. Pode aceitar o envelhecimento. Pode ser uma ótima mãe, mas preservar sua individualidade – como as “Skate Moms” ou os “Mom Clubs” do Reino Unido, grupos de mulheres que se unem em torno de uma única regra: naquele dia, falar dos filhos é proibido.

Não existe necessariamente contradição nisso. Existe complexidade.

Mulheres não são um nicho

E talvez aí esteja uma das maiores oportunidades estratégicas para as marcas hoje: parar de perguntar apenas “o que as mulheres querem?” e começar a compreender como o gênero atravessa experiências que até hoje tratamos como universais.

Quando uma marca incorpora necessidades específicas de mulheres ao produto, à experiência ou à comunicação, existe o receio de restringir sua atuação a uma pauta feminina.

Mas há uma inversão nessa lógica: por que considerar o corpo masculino como referência seria “universal”, enquanto incorporar o corpo feminino seria “nicho”?

Um exemplo interessante é o da Volvo, que utiliza bonecos femininos em crash tests, desenvolveu posteriormente um modelo virtual de uma mulher grávida e hoje trabalha com modelos humanos virtuais que podem ser adaptados para representar corpos femininos de diferentes tamanhos e formatos. Com a iniciativa E.V.A., a empresa também tornou públicas décadas de pesquisas sobre como diferentes corpos respondem a acidentes.

A Volvo não precisou virar uma “marca feminina”. Precisou reconhecer que segurança universal só pode existir quando diferentes corpos fazem parte daquilo que entendemos como universal.

A mesma mudança começa a aparecer em outras categorias: a Samsung incorporou ao Samsung Health o acompanhamento do ciclo menstrual e utiliza dados de temperatura captados por dispositivos como Galaxy Watch e Galaxy Ring para aumentar a precisão das previsões. No Brasil, O Boticário lançou em 2026 a linha Cereja de Fases depois de uma pesquisa com 1.200 mulheres de 14 a 65 anos, que investigou transformações físicas, emocionais e comportamentais da menarca à menopausa.

São iniciativas diferentes, mas compartilham uma mudança fundamental: a mulher deixa de entrar apenas na comunicação e passa a entrar no projeto.

Da representatividade para a compreensão

Durante alguns anos, boa parte da conversa sobre gênero no marketing se concentrou em representatividade. Era uma discussão necessária: quem aparece na propaganda? Quais corpos estão sendo mostrados? Quem protagoniza as histórias?

Mas talvez a próxima agenda seja mais profunda.

Não basta colocar diferentes mulheres na frente da câmera se produtos, serviços, pesquisas, jornadas e experiências continuam partindo de uma ideia simplificada sobre como elas vivem. 

Reconhecer a complexidade das mulheres não significa transformar toda marca em uma marca sobre mulheres. Significa compreender que gênero é uma das lentes que organizam a maneira como metade da população experimenta o mundo. Essa mudança parece pequena, mas altera completamente o papel da pesquisa, da inovação e do branding.

O mercado aprendeu a celebrar quantas coisas uma mulher pode ser.

Agora talvez precise aprender algo mais difícil: entender que ela não precisa ser apenas uma delas, nem todas ao mesmo tempo.

O MÍSTICO É POP: SÍMBOLOS, RITUAIS E NOSSA BUSCA POR SENTIDO

Um ritual coletivo para negociar com o tempo


Você também não acha curioso que nós, humanos, ao percebermos que a Terra está prestes a completar mais uma volta ao redor do Sol, decidimos fazer um evento disso? Nos arrumamos, decoramos os ambientes, escolhemos roupas com cores e significados, combinamos encontros. Muitas vezes, viajamos só para estar em outro lugar quando o relógio marcar meia-noite. E então seguimos o roteiro da tradição: reunião com família e amigos, comida farta, brindes, fogos de artifícios, abraços. Celebramos… o quê, exatamente?

Nada além de um fato astronômico: a Terra completou mais uma volta ao redor do Sol. 

Não mudou nada. Mas, ao mesmo tempo, mudou tudo.

Por mais diferentes que sejam essas tradições ao redor do mundo, todas possuem algo em comum: o impulso de marcar o tempo com rituais, símbolos e promessas. As cores, os pedidos silenciosos, as superstições e a ideia de recomeço funcionam como pequenas tentativas humanas de negociar com o futuro. Não se trata exatamente de acreditar ou não – trata-se de precisar acreditar, nem que seja por uma noite.

No fim das contas, não é a data que importa. É o ritual.

Nossa busca por sentido e o místico como alternativa.

Somos atravessados por rituais o tempo todo – alguns místicos, outros religiosos, outros puramente sociais. Mas todos cumprem a mesma função: marcar ciclos, criar sentidos e nos lembrar que estamos vivendo juntos.  São uma das formas mais antigas – e eficazes – de produzir emoção compartilhada e de nos conectarmos com o místico.

Esse impulso de mistificar ou ritualizar não surge do nada – tampouco pode ser entendido como uma tendência passageira. Atravessando séculos de nossa história, ele agora está inserido num contexto marcado por pandemia, excesso de informação, crises econômicas, políticas, sociais e climáticas. Diante de tantas incertezas, as “referências racionais” já não dão conta da complexidade do presente e o futuro deixa de ser percebido como uma linha previsível e passa a ser sentido como algo fragmentado, opaco e, muitas vezes, assustador.

Na tentativa de dar forma ao que não controlamos, esses gestos simbólicos se fortificam.

Encantamento Místico: a curva ascendente da BALT

Nesse cenário, o desejo de planejar não desaparece, e sim, se transforma. Em vez de planos rígidos, criamos imagens. Em vez de garantias, ensaiamos possibilidades. O pensamento simbólico e os rituais emergem não como fuga da realidade, mas como tentativas de reorganização do mundo e de si. Vision board, numerologia, velas aromatizadas, incensos, cristais, tarot e astrologia traduzem expectativas abstratas – sucesso, estabilidade, bem-estar e pertencimento – em referências simbólicas, visuais e compartilháveis. Eles não prometem controle total sobre o futuro, mas oferecem algo igualmente valioso: a sensação de orientação, alinhamento e intenção.

Esse movimento pode até ser interpretado como um “despertar espiritual”, mas é o que identificamos na BALT como Encantamento Místico (Report 2024 – O consumidor em busca das suas referências): uma espiritualidade leve, cotidiana e descolada de dogmas, que se manifesta no consumo, na estética e nos rituais do dia a dia. Um misticismo prático, que não exige crença absoluta, mas oferece sentido suficiente e torna o cotidiano habitável – uma forma de alívio emocional que permite ao consumidor explorar mudanças, contradições e desejos sem ruptura identitária.

O retorno de Jung e a curiosidade pelo inconsciente coletivo

Essa recorrência simbólica pode ser compreendida a partir das ideias de Carl Jung. Para o psicanalista, certos símbolos e arquétipos retornam ciclicamente porque fazem parte do inconsciente coletivo. Em períodos de instabilidade, esses arquétipos não explicam o mundo de forma literal, mas organizam emocionalmente as experiências humanas universais diante do desconhecido. Não por acaso, Jung volta ao centro do debate cultural com a exposição A Alma Humana: Eu e o Universo no MIS – sinaliza um interesse renovado por compreender o mundo não apenas pela razão, mas também pelo simbólico, pelo imaginário e pelo sentido compartilhado.

Dentro desse repertório, uma narrativa se destaca: o Forbidden Fruit. Presente em mitos, contos e histórias contemporâneas, o fruto proibido pode ser entendido como a manifestação de um arquétipo ligado à sombra e à curiosidade humana, mais do que tentação, ele representa o impulso de transgredir, de acessar o oculto e de se transformar. 

É justamente por isso que o místico encontra terreno fértil na cultura pop contemporânea. O proibido, o sobrenatural e o invisível funcionam como linguagens simbólicas que atualizam o Forbidden Fruit e imaginário coletivo, traduzindo-os em estética, narrativa e entretenimento.

O místico como estética e narrativa na cultura pop

O fascínio pelo místico aparece como linguagem narrativa, estética e emocional. Filmes e animações como K-Pop Demon Hunters e Os Pecadores exploram mitos, forças invisíveis e universos sobrenaturais para dar forma simbólica a medo, culpas e desejos que não encontram respostas puramente racionais. O sobrenatural funciona menos como crença literal e mais como metáfora para atravessar tempos incertos. 

Esse imaginário se desdobra em expressões que transformam o místico em código compartilhado. Marina Sena constrói atmosferas espirituais, intuitivas e corporais que traduzem em estética, presença e emoção. Anitta mobiliza astrologia como repertório simbólico ao associar performance a signos, convertendo o zodíaco em narrativa e espetáculo. Esse universo se expande ainda mais quando atravessa o humor e as redes sociais: Márcia Sensitiva traduz previsões e discursos espirituais em conteúdo viral, fazendo o místico circular entre o sério e o cômico.

Nesse processo, o misticismo deixa de operar como crença alternativa e passa a funcionar como linguagem cultural acessível, comentável e amplamente compartilhada.

Do simbólico ao cotidiano: quando o místico encontra o consumo

Mais do que uma moda passageira, o misticismo se consolida como uma linguagem cultural contemporânea – atravessa o entretenimento, a música, o humor e os rituais do cotidiano, oferecendo não respostas definitivas, mas imagens e  narrativas capazes de orientar – ainda que provisoriamente – nossa relação com o tempo, o futuro e o desconhecido.
É nesse ponto que o encantamento místico encontra no consumo um território de tradução. Marcas passam a operar símbolos, previsões e forças invisíveis não para oferecer respostas espirituais, mas para criar vínculos emocionais. O que está em jogo não é fé, mas orientação simbólica.

Na Smart Fit, o misticismo aparece associado ao corpo como templo e à ideia de transformação pessoal. Campanhas como “Seu futuro é na Smart Fit” ou “O Ano do Shape” se apropriam da lógica de previsão tão presente no tarô e na astrologia para projetar um futuro desejado. O treino deixa de ser apenas disciplina física e passa a ser ritualizado como promessa de renascimento. O corpo não é só matéria: é projeto, destino e potência em construção.

A Netflix, por sua vez, mobiliza o místico como narrativa e entretenimento. Ao convidar o público a “descobrir o que o futuro reserva”, a plataforma instiga curiosidade e imaginação. Previsões funcionam menos como verdade e mais como convite ao escapismo e o vínculo emocional dos fandoms com universos simbólicos e cinematográficos compartilhados do entretenimento

Abracadabra Drink, assume o misticismo em um registro mais transgressor. A marca se apropria de códigos da bruxaria, do segredo e da invocação para intensificar a experiência sensorial. Não há explicação racional sobre o “efeito” é apenas convocado simbolicamente. Aqui, o místico legitima o prazer.

Comportamento intrínseco: conexão e identificação

No fim, o sucesso dessas narrativas não depende da “fé” do consumidor. O Encantamento Místico 2026 funciona porque não é um nicho, é uma linguagem. Mesmo aquele que não acompanha astrologia ou não possui cristais na mesa de cabeceira, entende o código. Isso acontece porque esses símbolos já foram absorvidos pelo nosso imaginário coletivo e transformados em repertório cultural brasileiro. A identificação não ocorre por causa do “astral” em si, mas porque a marca está falando uma língua que o consumidor já sabe falar, mesmo sem saber que sabe.

A conexão real acontece quando a tendência encontra um comportamento humano intrínseco. No fim das contas, seja através de uma vela, de um treino ritualizado ou de um brinde à meia-noite, continuamos fazendo o mesmo que nossos antepassados: acendendo fogueiras simbólicas para iluminar a escuridão do futuro.

Pensando nisso, como podemos continuar dando sentido ao nosso tempo?